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Apego a ambientes fechados

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  Essas poucas linhas são insuficientes para fazer uma análise mais detalhada do pensamento de Lourenço Mutarelli como escritor e quadrinhista, mas algumas obras deixam transparecer a personalidade do artista e suas preferências. Em Diomedes, Mutarelli mostra dois traços que lhe são peculiares: o habito excessivo por cigarro e certo apego por lugares fechados. Na trilogia o detetive Diomedes, depois de a esposa abandoná-lo, passa a viver no escritório (local em que mora e trabalha). O lugar parecer insalubre, mas para o detetive é confortável. Ele passa tempo lá dentro e parece gostar do local. Mutarelli em algumas entrevistas deixa transparecer que não gosta de circular pelas ruas e prefere ficar em casa. Isso fica explícito em sua obra. Diomedes precisar “ganhar a vida” e por isso é obrigado a sair de seu recinto. Não fosse isso ficaria lá por mais tempo. Outro personagem que mostra esse lado “caseiro” é Paulo em “Nada me faltará”. Ele perde a memória e volta para a casa da...

Diomedes

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 A vida é feita de momentos, escolhas e diversas construções subjetivas. Tive a oportunidade de voltar a uma prática antiga que é ler alguns quadrinhos. Ganhei de presente uma obra completa do gênio brasileiro, Lourenço Mutarelli. Trata-se da trilogia completa de “Diomedes”. Diomedes é um detetive particular, que não consegue solucionar um caso com sucesso. Embora seja esse “não-detetive” consegue fazer com que o desfecho de seus casos tenham um tom filosófico e provocador. Na verdade, a obra de Mutarelli é sempre uma provocação. Não há um final estático. Dessa maneira, o autor chama à reflexão e dinamicidade. Gostaria de destacar uma parte muito significativa em que Diomedes procura por um mágico, que fizera muito sucesso. Ele chega a um circo falido e conversa com algumas pessoas. O circo não funciona mais. Entretanto, seus integrantes insistem em continuar por lá. Ainda que não haja circo, dinheiro, público eles continuam lá. Somente o palhaço conseguiu um emprego convencion...

Bom dia, Verônica

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  Uma das séries policiais brasileiras de excelência. Assim pode ser descrita a primeira temporada de “Bom dia, Verônica”, que traz os bastidores das investigações policiais tendo como protagonista a escrivã, Verônica, interpretada por Tainá Müller. A trama tem as mulheres protagonizando do início ao fim as cenas e histórias. Os primeiros episódios começam com o caso de algumas mulheres que foram enganadas por um charlatão, que tirava fotos delas (após tê-las dopado) e as chantageava. Em comum todas tinham o mesmo perfil: mulheres que passaram por cirurgia para redução de peso. Esse primeiro momento da série chama atenção para a problematização e padronização de beleza imposta pela sociedade. Nessas circunstâncias a mulher “tem” que ser magra para ser considerada uma “mulher de verdade”. O próximo passo? Ela “tem” que ter um homem bonito ao seu lado. Duas coisas se destacam nessa parte. A primeira delas diz respeito a uma “convenção” social que pauta os padrões de beleza. ...

Nada me faltará - Lourenço Mutarelli

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  Por esses dias consegui terminar a leitura de “Nada me faltará”, de Lourenço Mutarelli. O livro é sobre a história de Paulo, um homem que em determinada fase de sua vida sumiu por um ano e retorno para o convívio social sem se recordar o período que esteve fora. A história se desenrola com Paulo não lembrando de sua relação com a família. Ele tinha esposa e uma filha, que continuavam sumidas. Ninguém sabia o paradeiro, muito menos Paulo. Ele voltou e assumiu sua vida, mas enfrentou várias dificuldades com as funções sociais: trabalho, família e amigos. Nesse ínterim uma ex-namorada, que havia ficado solteira passa a dar vazão a seus sentimentos e confessar que sempre gostou de Paulo. Ele, por sua vez, não se lembrava de sua esposa e filha. Em dado momento chegou a confessar que não se lembrava e nem sentia falta de sua vida anterior. O interessante na obra é que Paulo passa a contestar o modelo de vida que tentam lhe impôr. O mais curioso é que tal modelo é, exatamente, o que ele...

Educação sustentável

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  Às quartas-feiras depois que se iniciou o período das aulas remotas tive a oportunidade de participar das formações da secretaria de educação do município de Cruzeiro. O grupo que faço parte é coordenado pela professora Elisabete Souza (Betinha da inclusão). Nas formações os temas são diversos. Geralmente orbitam em torno do tema da inclusão e educação especial. Mas nos últimos encontros o tema da sustentabilidade tem aparecido de forma recorrente. Por isso, esboçarei alguns parágrafos a respeito do que considero importante sobre o assunto. Não partirei de nenhum pressuposto pedagógico, mas sim de uma perspectiva filosófico-teológica para fundamentar meus argumentos. Sendo assim, começarei com um texto de Paulo aos Romanos em seu capítulo 8. “ Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.    E não só  ela ,  mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a sabe...

Por que Gilead teme o feminismo?

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Margaret Atwood através de dois romances distópicos (O conto da Aia e Os testame ntos) mostra que uma sociedade teocrática de viés machista é extremamente perigosa. O que levou a essa sociedade? Os livros mostram que para se chegar a uma sociedade totalitária com forte acentuação machista e anulação da figura da mulher como autônoma, foi construído um discurso em cima de falácia e dissimulação de dados científicos, somou-se a isso a negação dos direitos das mulheres e homossexuais. A democracia é um regime de conquistas e de permanente vigilância. Em “O conto da Aia” a personagem principal narra a atuação da esposa do comandante Waterford, Serena Joy. “Naquela altura, ela já não cantava mais, estava fazendo discursos. Era boa oradora, sabia fazê-los. Seus discursos eram sobre santidade do lar, sobre como as mulheres deveriam ficar em casa” (ATWOOD, 2017, p.58). Essa noção de que o lugar da mulher é no lar como cuidadora de filhos e submissa ao marido permanece até os dias de hoje em mu...

A casa Eterna

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  Imagina um dia poder ir à casa do Rubem Alves e bater um papo com ele. Já pensou? Então, meu amigo, Moisés Coppe, fez isso e colocou tudo “na ponta do lápis”. O fruto dessa conversa foi o livro chamado a “ A casa Eterna: conversas com Rubem Alves”.   O livro foi lançado no ano de 2017, mas é muito atual. O texto mescla partes das conversas com livros, artigos e crônicas de Rubem Alves. Moisés traduz com grande competência o pensamento do teólogo, filósofo, poeta, escritor e psicanalista de forma terna – como sugere o título da obra. Os capítulos foram organizados de forma compactada - e isso confere mais dinamicidade ao texto. São tratados vários temas: arte, política, teologia, literatura, filosofia e afins. A leitura flui envolvendo o leitor em cada história. Cada parágrafo parece ser milimetricamente calculado. A impressão que se tem é que quando se chega ao ápice de uma história. Ela termina, e o leitor se pergunta: como será o próximo capítulo? Daí vai e começa a le...