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Máquinas sociais e o desejo em "Capitalismo e Esquizofrenia"

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Deleuze e Guattari dedicam-se a escrever uma obra com o objetivo de dupla crítica: ao Édipo do capitalismo e à edipianização da psicanálise. O texto ficou conhecido como Capitalismo e Esquizofrenia tendo em o Anti-Édipo seu início e em Mil Platôs sua continuação. Ao todo são mais de mil páginas por isso é considerada uma das maiores obras filosóficas do século XX. Para os autores a humanidade é concebida na dinâmica de máquinas produtoras de desejos Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. Uma máquina-órgão é conectada a uma máquina-fonte: esta emite um fluxo que a outra corta. O seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma má- quina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma má- quina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar (crise de asma) (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.11). Como são leitores de Nietzsche concebem a produção como pulsão, ou sej...

109 da Assembleia de Deus no Brasil

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Essa semana a Assembleia de Deus completou 109 anos no Brasil. Em síntese o movimento foi iniciado por Charles Paham e depois teve William Seymour como principal expoente. Seymour era negro, filho de ex-escravos. Seu nome é associado ao avivamento da rua Azuza. No Brasil a Assembleia de Deus teve inicio com Gunnar Vingren e Daniel Berg. Eles receberam o dom de línguas estranhas e saíram para fazer a missão “mundo afora”. Estabeleceram-se no Pará. São considerados os fundadores da Assembleia de Deus brasileira. Do ponto de vista sociológico a Assembleia de Deus tem importância singular, pois foi precursora no trabalho com os pobres sem o pedantismo dos protestantes históricos. Esses tinham um discurso afinado com a classe média, média alta. Os pobres eram tidos como “tábulas rasas”, portanto, recipientes para se despejar o saber teológico moderno. O discurso da Assembleia de Deus possuía caráter popular e simples. Com isso arrebanhou o povo da periferia. No que diz respe...

Necropolítica do racismo: uma brevíssima introdução

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Muito influenciado pela questão do racismo estrutural de nossa sociedade e pela adoção da  necropolítica  como modo de ser do Estado minha inquietação é saber, de fato, como essa configuração se dá em termos filosóficos. Para tal me valho do referencial de Achille Mbembe para começar a pensar e pontuar essas inquietações. Em  Necropolítica  (2018) Mbembe faz um ensaio sobre a gênese do que denomina como  necropolítica  que, em síntese, significa: “governo da morte”, ou ainda, governo orientado para a morte. Nas páginas introdutórias o autor cita o seguinte: “Este ensaio pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer” (MBEMBE, 2018, p.5). A partir dessa afirmação Mbembe vai buscar fundamentos para sustentar sua tese. Um dos autores que busca dialogar é o filósofo Hegel que, de acordo, como Mbembe defende que a morte é algo voluntário na relação...

Viver é resistir

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(Eu não queria escrever esse texto...). Essa semana duas imagens fortes marcaram minha vida. A primeira é de um jovem de nome João Pedro que foi morto com um tiro. O jovem era evangélico, tinha 14 anos de idade. Seus sonhos e projetos foram abortados por uma política de extermínio. A outra imagem é de um homem, já imobilizado, sendo asfixiado até a morte por um policial. Em comum: as duas vítimas eram pessoas negras. Quem vive e que morre? Essa é a grande pergunta. Na introdução sobre a “necropolítica” Achille Mbembe delimita a questão. “Este ensaio pressupõe que a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais”. (MBEMBE, 2016, p.123). A política “da morte” é tratada pela alcunha, “necro”, por seu caráter dizimador de determinada classe de pessoas. Gordon no prefácio de “Pele negra, máscaras brancas” já arg...

Bacurau

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Bacurau é um filme intrigrantemente forte. Essa é a melhor definição que consigo dar à obra que é, além de tudo, um mergulho na identidade do povo brasileiro.   O filme é rico em detalhes, simbolismo e possui uma mensagem de resistência e luta. O nome Bacurau é de um pássaro noturno, que não gosta de ser incomodado. Em uma das falas do filme pergunta-se: “quem nasce em Bacurau é o que? A resposta é: gente.” Nada mais brilhante. Gente. Gente do Brasil. Os símbolos do filme exibem algumas curiosidades. A cidade se encontra no interior do nordeste e não consta no mapa. Ao mesmo tempo as pessoas são conectadas com a internet. Possuem tablets; celulares e se comunicam por rádios transmissores. A população, embora do interior, parece muito bem informada. Nas casas os livros e pequenas bibliotecas são colocados ao fundo das cenas. Bárbara Colen e Sônia Braga são duas médicas da comunidade. Bárbara interpreta Teresa, uma médica que foi criada na cidade, mas ficou muito ...

Itinerário de um profeta: ações e contradições

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Henrique Takahashy em seu brilhante texto “O evangelho segundo os Racionais Mc´s” aborda a formação e atuação do grupo sob um olhar sociológico. Por diversas vezes faz analogia da atuação do grupo com passagens e personagens bíblicos. De acordo com essa abordagem o grupo figuraria como um novo Israel frente ao Império egípcio, numa releitura do êxodo hebraico. A periferia, representada nas diversas letras, seria então o povo oprimido, como menciona Takahashy. "As figuras dos egípcios e do Faraó são reatualizadas, numa perspectiva periférica, respectivamente, em “ playboys ” e “sistema”. Os playboys seriam figurados enquanto aqueles indivíduos pertencentes s classe social dos dominantes que oprimiriam o povo, da mesma forma que os egípcios oprimem os hebreus. O sistema seria a estrutura dominante e injusta que oprime e explora a classe popular, os moradores de periferia, de modo a deixa-los submissos e docilizados. Esse seu poder estrutural possui um teor absoluto e a...

Uma liturgia da sobrevivência

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Nesses tempos de quarentena tenho ficado mais recluso e dedicado meu tempo a velhos projetos que nunca tinha terminado. Um deles era escrever alguma coisa sobre rap e teologia. Já em 2011 eu havia encorajado um amigo a fazer seu TCC sobre “a teologia do rap”. Eu tentaria ajudar na medida do possível. Os anos se passaram e fiquei muito empolgado quando em 2018 foi lançado o livro “Sobrevivendo do Inferno” pela Companhia das Letras. O meu exemplar eu comprei na lendária Livraria Cultura, na avenida Paulista. Há tempos eu venho sendo assombrado por minhas memórias que me interpelam a cerca do que ainda não fiz e deveria ter feito. Eu ouço Racionais desde o começo de sua carreira. Conheço todos seus discos. Fui a shows do grupo. Discuto e defendo a importância do rap e sua mensagem, mas nunca tinha escrito nada a respeito. Encorajei pessoas a fazê-lo, mas eu mesmo nunca tinha feito. Esses dias de difícil sobrevivência (pandemia do COVID-19) tenho me dedicado a repensar sobre rap e...